Exu e as Encruzilhadas: Diálogos com a Clínica Psicanalítica
Autora: Alba Lúcia Bastos Dezan
Sou uma mulher negra, judia, macumbeira, brasiliense de nascimento, com pedacinhos do coração espalhados em muitos lugares do Brasil e do mundo. Tenho o riso solto, sou irremediavelmente apaixonada pela vida e aprendo todos os dias com o candomblé que estamos aqui nesta vida para sermos felizes. Amo música brasileira, livros e um bom vinho. Faço questão de dividir bons momentos vividos com quem amo. Sou tataraneta de seu Amaro Bastos Renner, um abolicionista, de quem herdei a paixão pela gafieira, pelo samba e pela luta política que me faz todos os dias lutar por um país mais justo e inclusivo. Também sou Psicanalista e Psicóloga de formação. Tenho Mestrado em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília, mesmo lugar no qual fiz a Especialização em Teoria Psicanalítica. Sou coordenadora do Espaço Winnicott Brasília.
Sinopse: A escrita se abriu pedindo licença a Exu: não com uma síntese, mas uma passagem, um furo na língua, um neologismo tomado de empréstimo a uma canção e endereçado ao/à leitor/a como sinal de uma escrita própria, emancipada, assumida. Que um livro de psicanálise comece por um pedido de autorização — não ao pai, não ao mestre, nem a uma escola de psicanálise, mas ao Orixá que abre e fecha passagens — já exprime algo essencial sobre o gesto que aqui se inaugura: o de deslocar o centro a partir do qual a teoria e a clínica psicanalítica têm sido, até hoje, majoritariamente pensadas.
Este é o livro de estreia da psicanalista Alba Lúcia Bastos Dezan: Exu e as encruzilhadas: diálogos com a clínica psicanalítica, no qual o leitor vai encontrar uma interrelação entre espiritualidade, ancestralidade, racialidade, negritude e clínica psicanalítica a partir dos autores das relações objetais e decolonialidade como Franz Fanon, Sueli Carneiro, bell hooks, Grada Kilomba, Kabengele Munanga, Lélia Gonzalez, Isildinha Baptista Nogueira, Virgínia Bicudo, Thamy Ayouch, e muitos outros.
A encruzilhada representa, na ancestralidade dos orixás, as escolhas que fazemos, os movimentos que construímos, os riscos que assumimos, as decisões que tecemos, a ênfase da multiplicidade dos caminhos que podemos percorrer. Portanto, a encruzilhada não se constitui um lugar físico, mas um lugar psíquico, um lugar simbólico, um símbolo do momento em que o sujeito precisa se posicionar diante das possibilidades da vida.
A encruzilhada é, nesse sentido, um lugar de força, de poder e tomada de consciência de que nada está totalmente resolvido, tudo pode mudar. Trata-se de uma metáfora ontológica e que introduz a existência de todo o ser humano com seu passado, seu presente e seu futuro, ou dito em outras palavras, com a sua própria ancestralidade.
E que a última palavra seja um verbo inventado que diz tudo da inventividade linguística, conceitual e afetiva que esses textos propõem. “Africaniar-se” não é chegar a um destino: é o gerúndio de um movimento que a encruzilhada torna, estruturalmente, interminável — um verbo que Exu continua conjugando a cada dia.
SUMÁRIO
| PREFÁCIO | 13 |
| INTRODUÇÃO | 19 |
| I. Exu e as encruzilhadas: A cultura negro-africana enquanto uma possibilidade epistêmica em diálogo com a clínica psicanalítica |
27 |
| II. O Eu Ideal e o Ideal do Eu | 37 |
| III. Racialidade e Psicanálise: Diálogos com Kabengele Munanga e Winnicott |
53 |
| IV. D. W. Winnicott e Roland Barthes: Transicionalidade, Prazer e Movimento na companhia de Um defeito de cor e de Água de barrela |
73 |
| V. Falando Pretuguês no Divã: Rabiscos sobre Psicanálise, Racialidade e Negritude na companhia de Lélia Gonzalez |
83 |
| VI. Como o letramento racial atravessa as nossas interações sociais |
103 |
| VII. Relações raciais e sofrimento psíquico: Um olhar psicanalítico sobre as consequências do racismo |
117 |
| VIII. A Clínica do Testemunho na escuta de pacientes negros: A escuta que faz laço, que humaniza, que permite o Ser. |
135 |
| IX. Criatividade, setting e manejo da racialidade na clínica psicanalítica | 149 |
| X. Família e Racialidade: Pertencimento e Construção da Identidade Racial |
159 |
| XI. Sonhar o futuro com a ancestralidade que nos atravessa | 177 |
| XII. (Re)Descobrir-se: Sendo uma Mulher Negra no Brasil |
191 |
| XIII. Diferenças que nos unem | 209 |
| XIV. Psicanálise e Racialização: Diálogos Possíveis e Necessários |
223 |
| XV. “Permita que eu fale e não as minhas cicatrizes”: A escuta do indizível ou Como ser continente daquilo que nunca pôde ser dito. |
235 |
| XVI. “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”: No entrelace entre passado e presente, a possibilidade de escrever e viver a própria história |
251 |
| REFERÊNCIAS | 269 |
| POSFÁCIO | 283 |













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